JANDIRA
Já não era sem tempo. Jandira
acordou as 05h00min, tomou um gostoso banho, pôs seu biquíni azul-marinho,
juntou suas coisas e foi para praia. Não queria ter vindo naquela viagem com a
irmã e os amigos. Não que não gostasse da irmã, que junto aos amigos eram intelectuais de primeira, às
vezes (quase sempre) esqueciam-se que fora do mundinho deles, havia outro mundo onde as pessoas deveriam ser
respeitadas. Jandira odiava esse apelo em fazer parte dessa sociedade de
narcisistas em que vivia, e as vezes, praguejava a própria mãe, por não entender o que
ela sentia. Jandira era diferente, conseguia sentir, enxergar um outro mundo e
lutava pra isso, mas, mesmo tendo 19 anos, não conseguia sair desta “prisão”
imposta pela mãe. Mas isso tudo até aquele dia, aquela manhã de sábado. A praia
estava á poucos metros do apartamento em que estava. Logo, seus pés tocaram os
finos e frios grãos de areia. Escolheu um bom lugar, estendeu sua canga e
sentou-se ali, de costas para um pequeno rochedo na praia. Ligou seu MP3 e ouvindo
sua música preferida: Incubus-Drive, começou a olhar para o horizonte. Como era
lindo o amanhecer. Gostava muito de poder ser como o amanhecer, um
acontecimento que todos admiravam e acreditavam. Gostaria de ser como o sol,
brilhar para todos e fazer todos se iluminarem. Jandira espirou fundo, aquilo
era amargurante. Nem mesmo tinha com quem conversar. Desejava muito também
encontrar alguém pra compartilhar seus sentimentos e lhe dar conforto.
Minutos se passaram, uma hora
talvez, o primeiro trecho do sol despontou sob as águas do mar, que estava bem
calmo. Fitou mais uma vez o horizonte e estranhou aquilo. Um ponto preto
começou a emergir nas águas vagarosamente. Um vulto começou a se formar, um
homem. Sentiu um medo intenso, um arrepio percorrer-lhe a espinha. Como aquele
homem poderia estar saindo da água? Já estava há muito tempo ali, e não tinha
visto mais ninguém, nenhuma embarcação, nada. Estava tremendo de medo. O homem
parecia vir em sua direção. Era difícil ver seu rosto, sua face. Apenas sua silhueta
era visível, pois o sol já emanava seus raios do horizonte. Tentou se levantar,
mas estava paralisada de medo e curiosidade. Jandira estava estarrecida. Como
aquele homem poderia estar saindo da água, se não o tinha visto entrar? Aos
poucos já era possível ver sua feição. Seus cabelos eram lisos, longos e
escorridos. Apesar de ter um estranho tom claro de pele, estava bastante
queimado pelo sol. Seus olhos eram de um azul que facilmente a fazia lembrar-se
do azul da cor do mar. Tinha uma aparência jovem, de um adulto bem formado, mas
ao mesmo tempo parecia-lhe olhar como uma criança. Com certa dificuldade,
Jandira se levantou. Tentou correr, mas fora o medo que a segurava, uma forte
mão a segurou pelo ombro.
- Não tenha medo...
Sua voz roupa e descompassada entrou
em seu ouvido a acalmando, quase que por hipnose. Jandira virou-se e encarou-o.
Seu coração parecia não bater. Sua respiração parecia parada no tempo.
Institivamente, ela sabia o que era aquilo o que estava sentindo.
- Eu vim pra ajudar você.
Jandira apenas concordou com a
cabeça. Aquele homem, estranho mesmo assim, agora lhe transmitia uma calma, uma
paz avassaladora. Ela estava rendida a ele. Olhou fundo em seus olhos azuis,
como eram lindos. Tentou falar algo, mas a mão do estranho tocou-lhe os lábios
em sinal de silêncio. Estava seduzida por ele. Logo, seus lábios se
encontraram, aquilo era loucura. O estranho tocava seu corpo com uma ternura
sem igual, nunca tinha sentido algo parecido. Em questão de minutos, antes mesmo
de o sol aparecer completamente no horizonte, Jandira estava fazendo amor com
um estranho na praia...
Acordou assustada. Estava rodeada
pela irmã e pelos amigos. Já estava no apartamento e estavam todos preocupados.
Pois segundo eles, Jandira havia sumido a manhã toda, e só foi encontrada perto
do meio-dia, desmaiada em baixo de umas árvores, do outro lado da faixa
litorânea. Não se lembrava do que havia lhe ocorrido. Não conseguia se lembrar
de quase nada. Em sua mente pousava apenas uma sensação de conforto, paz e
muito amor.
O tempo passou. Essa viagem logo foi
esquecida, a não ser pelos breves comentários sobre o pequeno sumiço de
Jandira. As coisas estavam diferentes, estranhas para ela. Já não sentia tanto
aquele desconforto por estar perto de “normais”. Parecia que tudo estava
mudando. Mudando para melhor. Era tratada com muito carinho por todos. Não
sentia mais aquele certo preconceito por parte das pessoas por ser crítica. Mas
seu corpo também estava mudando. Seus seios pareciam mais inchados e maiores.
Seus lábios mais carnudos. Já sabia o que estava lhe acontecendo. Mas como? Não
se lembrava de ter sumido. Será que tinha sido violentada? Mas não havia
qualquer sinal em seu corpo. A sua mãe logo desconfiou. Ao contrário do que
pensava, achava que a mãe lhe comeria viva, mas, lhe deu todo o apoio. Todos
apoiavam agora. Todos já sabiam que Jandira estava à espera de um bebê.
Seis, sete, oito meses se passaram.
Jandira estava linda, era a gestante mais bela da região. Diferente de outras
mulheres, Jandira não sentia desejo por nada. Pelo contrário, comida de tudo
sem reclamar. O que mais chamava a atenção, é que ela, bebia quase dez litros
de água por dia. Os exames médicos apenas serviram para comprovar que o bebê
era também o mais sadio dos últimos tempos.
Nono mês, Jandira sabia, seu corpo
sabia. Daquele mês de março não passaria. Já tinha até escolhido o nome do
bebê. Se fosse uma menina, iria se chamar Marina, e se fosse um menino, o nome
escolhido seria o de Nereu.
Neste mesmo mês de março, como já era
tradição na família, todos se reuniam em um sítio no interior do Estado, para
comemorar o aniversário da avó. Na festa todos a admiravam. Estava linda.
No sítio, muito bem equipado por
sinal, até piscina havia. Todos estavam se divertindo muito, inclusive D.
Mafalda que no auge de seus 80 anos, ainda nadava muito bem. Jandira olhava pra
tudo aquilo com grande admiração, pois, há quase um ano atrás, pode jurar que
sentia os olhares preconceituosos de seus próprios parentes. Simplesmente
estava feliz.
O dia estava lindo ensolarado. Logo
cedo, os primos e primas menores invadiram a piscina, transformando-a em imenso
parque aquático de diversões. Então, sentiu uma pontada. Um chute do bebê? Não,
uma leve dorzinha, que aos poucos, foi aumentando, juntamente com uma sede inexplicável.
Levantou-se e foi para a cozinha. Parou em frente à geladeira, e em um gole só
tomou quase dois litros de água de uma só vez. A dor não passou. Um estranho
calor começou a subir-lhe pelo corpo. Precisava refrescar seu corpo. Saiu da
cozinha, e foi para o quintal. A dor aumentava cada vez mais. O calor também.
Será que estava chegando o momento? Antes que qualquer um dos parentes pudessem
ver, Jandira despiu-se ficando apenas a calcinha, e se jogou na piscina. Todos
pararam. O pai e um tio de Jandira largaram o que faziam e pularam logo atrás
da garota.
- Filha! Jandira! Você está bem?
Vamos sair daqui, esta água pode fazer mal a vocês.
Jandira relutava. Estar ali era
refrescante, a dor sumia.
- N-não pai, eu não quero sair. E-eu
estou bem.
- Jandira
você está ficando louca?
- Por favor, pai, eu só quero que
este calor passe.
Jandira agarrou-se aos ombros do pai,
e antes que pudesse dizer algo mais, desmaiou. Seu pai quase entrara em
desespero, e ao tentar retirar a filha da água, percebeu que ela estava
sangrando.
- Pelo amor de Deus, alguém me ajude!
- Gritou o pai desesperado, tentando ser
acalmado pelo tio.
Dona Mafalda vendo aquilo, livrou-se
da conversa entre as mulheres e dirigiu-se rapidamente a piscina.
- Não a tirem d’água. Não a tirem
daí. A senhora simplesmente se jogou na água, pedindo para que seus dois filhos
não retirassem a neta da piscina.
- Mãe a senhora ta louca?
- Não, ela vai ter o bebê aqui mesmo,
vou fazer o parto!
- Eles vão se afogar! Eles vão se
afogar! – Pai de Jandira já estava desesperado. Amava sua mãe, mas aquilo já
era loucura.
- Se os dois saírem d’água agora, podem
morrer.
Finalmente, os dois irmãos
consentiram, e obedecendo a mãe idosa, seguraram Jandira pelas pernas e braços.
Logo, a água tingiu-se de vermelho.
Dona Mafalda, segurando o que parecia ser a cabeça do bebê, se assustou com
aquilo. A criança foi saindo aos poucos. Jandira continuava desacordada, e não
expressava estar sentindo nenhuma dor. Aquilo era estranho, o bebê não estava
ligado a Jandira por um cordão umbilical, simplesmente não havia um. E antes
que a avó pudesse segurar seu bisneto, a criança escorregou de suas mãos e
nadou na piscina como se fosse seu habitat natural.



