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"Poc!...
Poc!Poc!Poc! Abriu os olhos vagarosamente com o estranho som estralando um
pouco acima de onde estava. Estariam jogando pedras no telhado? Não, estava
muito alto para que as pedras o alcançassem... Então o que poderia ser?
Levantou-se, estralando os ossos do corpo em uma forte espreguiçada. Destravou
a porta de aço que trancava a casa de máquinas e empunhou um cano, de mais ou
menos o tamanho da sua perna. Precisava estar preparado. Sempre. Nunca podia
contar com a sorte, mas naquele instante, poderia contar sim. Uma brisa fresca e
umedecida tocou-lhe a face. A pouca luz da tarde nublada apenas ofuscou seus olhos.
Estava chovendo granizo. Gelo! Como uma criança ao receber um tão esperado presente,
simplesmente correu para ver o sistema de chuva que havia criado e juntou o máximo
de baldes no piso de piche do telhado. Voou para a casa de máquinas e pegou um
molho de chaves. Apanhou uma mascara anti-gazes e disparou em direção a porta
que dava acesso ao mezanino, protegendo a cabeça, contra as pedras que caiam
ferozmente. Lembrou-se de quando era criança, e certa vez, junto com os amigos,
brincava de trenó sobre a fina camada de pedras de gelo que se formava rente a
rua e a calçada, fazendo-os deslizarem e patinarem. Usavam um velho banco de
plástico como tréno, que haviam achado em um terreno baldio perto de onde moravam.
Boas lembranças. Sentia falta disso, sentia falta de uma vida normal.
Destrancou a porta
de acesso as escadas, ajeitou a mascara no rosto e ainda empunhando o pedaço de
cano, adentrou no mezanino. Já conhecia o lugar de cor e salteado, e mesmo no
escuro, atravessou a sala repleta de máquinas de ar-condicionado, filtros e
banhos-marias que preenchiam o lugar e jaziam como máquinas velhas e abandonadas.
Com pelo menos quatro chaves, destrancou os cadeados de mais uma porta e já estava
no último andar do hospital. Precisava ser cauteloso agora. Sabia que mesmo
depois de ter levado quase dois meses para “limpar” o lugar, um deles podia
ainda estar escondido por ali. Passou pelos corredores e uns passos, mas a
frente parou em frente à porta do elevador abrindo-a, revelando um calor abafado
e apenas os cabos que o conduzia. Esfregou as mãos na já surrada calça jeans,
prendeu o cano no cinto e pulou agarrando um dos cabos. Ao fazer isso, talvez
pelo impulso, o cano deslizou da calça indo parar a alguns metros abaixo,
ricocheteando nas paredes, fazendo um barulho imenso, parando no teto do elevador
uns dois andares abaixo. Merda! Merda! Merda! Se alguns deles estivessem ali,
logo correriam em direção ao barulho, isso era o que faziam de melhor. Agora
tinha que ser mais rápido ainda. Desceu então o mais rápido que pode e logo
alcançou o cano. Baixou com os coturnos que usava o mais suave possível na
parte de cima do elevador e esperou atentamente, por qualquer tipo de
aproximação. Contou mentalmente que pelo menos três minutos haviam se passado e
decidiu seguir seu destino. Abriu a saída superior de emergência e em um pulo
estava dentro do cubículo que era o elevador. Nesse a porta já se encontrava
escancarada, e logo a frente, ao fundo do corredor podia ver seu destino, uma máquina
de refrigerantes da PEPSI. Empunhou o cano e seguiu.
Pelas janelas
quebradas por uma guerra insana, podia ver o tempo fechando cada vez mais. As
pedras de gelo já não eram tantas caindo, e em seus lugares, pingos grossos de
água anunciavam a imensa chuva. Passou por leitos e salas operacionais abandonadas.
As paredes do corredor, ainda mostravam a o terror que deveria ter ocorrido
ali. Manchas de sangue, marcas de balas, fios cortados, aparelhos e móveis
queimados, denunciavam a matança daquele lugar. Tentou não lembrar-se do que
ocorrera ali e apressou os passos. Sua mente, talvez até mesmo por instinto e
pela luta de sobreviver, havia apagado uma série de lembranças que poderiam impedi-lo
de continuar vivo. Às vezes sonhava com alguns momentos, mas esses sonhos nunca
eram lembrados quando acordava. Em sua memória, restava apenas as raízes de um
amor há muito tempo partido. Às vezes lutava para entender tudo aquilo. Tinha medo
de descobrir a verdade. De saber que todos estariam mortos. Não agüentaria saber
que tinha perdido as pessoas que estavam na sua vida.
A máquina era grande, bastaria apenas abrir o
cadeado e pegar algumas latinhas. Sua boca ansiava por sentir aquele sabor
novamente, entre todos os sabores que se lembrava dos refrigerantes, o da PEPSI
ainda era o melhor. Retirou o molho de chaves e começou a usar as que não
estavam marcadas. Uma, duas, três, oito chaves e nenhuma delas abria o maldito
cadeado. Não queria ter que arrebentar o cadeado, já havia feito barulho demais
ao descer pelo fosso do elevador. E agora? Tinha a oportunidade de matar a
vontade de tomar um refrigerante, mas correria o risco de ser atacado. Pensou
bem sobre isso e... Foda-se! Apertou o ferro frio nas mãos e com apenas um
golpe, atingiu o cadeado da máquina, fazendo com seus pedaços se espalhassem
pelo corredor. Destravou a porta, pensando que o barulho não havia sido tão
alto e sorriu ao ver que na máquina ainda havia bastantes latas de
refrigerante. Colocou pelo menos três latas em cada bolso frontal da calça e fechou
a porta. Suspirou, logo estaria sentido o gosto da bebida daquelas latas.
Arrumou-se e empunhou novamente o cano. Tinha que voltar mais rápido agora, a
chuva havia aumentado, e logo as pedras de gelo estariam derretidas. Seu plano
falharia se demorasse, e então apertou os passos na direção do elevador. Ao
passar pela porta de acesso as escadas, ouviu um ruído. Como algo se arrastando
ou puxando outra coisa, mas que começava a aumentar o ritmo. Era um deles,
tinha certeza. Correu em direção à porta quebrada, mas antes de alcançar o
elevador, viu aquela violentada pessoa aparecer entre as portas de acesso a
escada. Parecia ser um homem de uns trinta e poucos anos, e a julgar pela sua
roupa em péssimo estado, deveria ter sido um executivo, ou uma profissão que o
fizesse usar terno e gravata. O barulho de arrastamento se dava por que preso
as costas do homem, havia um gancho de carne preso a uma corrente, que deveria ter
sido colocado ali, talvez na esperança de contê-lo. Sob sua pele acinzentada e
as mais diversas marcas em seu corpo, era possível ver sinais de luta, ele deve
ter resistido muito antes de “morrer”. No que sobrara do terno, nos cortes a
carne ainda pendia dilacerada e em seu braço direito podia se ver os músculos
partidos e mastigados, levando a crer que através dessa ferida é que tinha sido
transformado. O homem, o que restara dele soltou um grunhido e correu em sua
direção, fazendo-o apertar o cano ainda mais nas mãos. Mal o ser aproximou-se e
o cano zuncou no ar em direção ao crânio carcomido da criatura, que se partiu,
feito casca de ovo, espalhando os miolos e tufos de cabelos por todos os lados.
Estava feito, mas precisava sair dali rápido, já podia escutar outros subindo
pela escada, grunhindo pela sua carne.
Em um pulo
atingiu a saída superior de emergência, deixando uma das latinhas para trás.
Fechou-a em tempo de ver os outros chegarem desastrosamente, preenchendo o
elevador com seus corpos podres e em pedaços. Começou subir pelos cabos de aço,
ouvindo as batidas contra a estrutura do elevador. Junto a esses sons, os
estalos dos freios iam aumentando conforme o peso lá embaixo aumentava. Já
podia ver a porta de saída do andar logo acima, mas antes de atingi-la, um
ruído forte tomou conta do fosso. O elevador iria cair! Respirou todo o ar que
podia e pulou em direção a beirada da porta, agarrando-se com força e batendo
as pernas na parede empoeirada do fosso. Os cabos começaram a tremer, as
roldanas estremeceram, e depois de um uivo, o quadrado metálico iniciou a sua
descida. Pelas contas, iria cair uns trinta metros pelo menos. Esticou a mão e
alcançou uma das vigas de construção, fazendo outra latinha cair e ao ver isso,
viu também o elevador espatifando-se no fosso, levantando uma imensa nuvem de
poeira. Nem queria imaginar o estado daqueles mortos no elevador, pois saberia
que os que não tiveram seus crânios esmagados ou perfurados de alguma maneira,
ainda estariam vivos com seus corpos destruídos, tentando se movimentar de
alguma forma. Respirou fundo e escalou a altura que faltava para atingir o
último andar. Correu, e logo já estava trancando novamente a porta de acesso ao
mezanino, enquanto a chuva pesada lhe castigava o corpo. Se fosse há algum
tempo atrás estaria esbravejando contra a chuva que molhava sua roupa, lhe
atrasando a chegada ao trabalho ou em casa, mas hoje, a chuva só lhe traria
coisas boas.
Verificou os
baldes e ficou feliz ao ver que muitas pedras de gelo ainda estavam lá, e umas
de tamanho até mesmo de punhos fechados. Carregou os baldes para uma área
coberta e despejou a água gelada em outros baldes vazios, mas sem deixar as
pedras de gelo caírem. Nessa mesma área, haviam quatro conservadores de tamanho
médios virados. Deixou os baldes no piso e abriu um dos conservadores
despejando as pedras de gelo em seu interior. Retirou as quatro latinhas que
sobrara da sua aventura e jogou-as sob o gelo. Fechou o conservador e no outro,
retirou um tubo de sabonete. Iria tomar um banho, sem precisar depender do
sistema de retenção que havia montado, economizando água. Sentou na porta do
equipamento e despiu-se. Foi para o meio da cobertura e mesmo com água gelada,
banhou-se. A chuva forte parecia lavar sua alma, levando consigo tudo de ruim
que já havia acontecido até ali, mas sabia que isso não era verdade. Ficou um
tempo ali parado, nu diante da cidade, coberta por um véu cinza da chuva,
imaginando o começo de toda aquela loucura. Imaginava se todo aquele apocalipse
não era culpa do próprio homem ou a vingança de Deus. Lembrou-se também de um
filme, “Legião” deveria ser o titulo, onde Deus, descontente com a humanidade,
havia decidido aniquilá-la. No filme, o dilúvio tinha sido a Sua primeira
escolha, nessa segunda investida, Deus mandou seus anjos em forma de exercito
acabar com seus próprios filhos. Antes fosse pelo menos ainda teriam tempo de
pedir por piedade. Saiu na chuva e em outro conservador retirou uma toalha
enxugando-se. Enrolou ela na sua cabeça e correu para a casa de máquinas. Vestiu outra calça e uma camisa folgada de
flanela. Calçou um par de chinelos e retirou um guarda-chuva de um armário.
Retornou a cobertura e retirou duas latinhas de PEPSI do conservador. Antes e
abrir a primeira, ficou encarando a lata azulada, como se ela fosse suplicar
para não ser violada. Riu ao pensar assim e logo puxou o anel, escutando aquele
barulhinho que faz ao ser aberta. Sorveu um longo e gelado gole. Podia até
mesmo jurar que sentia vontade de chorar, por que sentia falta de fazer isso
normalmente. Sentia falta de muitas coisas. De muitas pessoas. Da vida normal e
confusa da capital. Mas em sua mente, sentia que lhe faltava uma peça muito
importante daquele quebra-cabeça apocalipitico.
Tentou
lembrar-se de alguma musica com chuva, mas só a Riders On The Storms, dos Doors
lhe veio à cabeça. Cantarolou a música desejando muito ter um rádio que
funcionasse, ou qualquer outro aparelho que pudesse reproduzir som. Não era um
consumidor daqueles que comprava tudo o que via tudo o que estava na moda, mas
também não gostava de ficar atrás das últimas tecnologias. Atualizava-as. Era
isso o que fazia quando lhe perguntavam o porquê de ter comprado tais aparelhos.
Outro motivo era devido ao emprego que tinha que lhe exigia estar atualizado,
antenado ao mundo moderno. Bebeu o último gole da latinha e a jogou contra a
chuva. Suspirou e abriu a outra. Era o que tinha de melhor agora dentre todas
as coisas que já havia perdido. Olhou a sua volta e desejou ter um pouco de
energia pra ligar algumas coisas que havia encontrado em suas buscas.
Notebooks, alguns celulares, aparelhos domésticos e alguns outros tipos de
utensílios. Mesmo desejando isso, se pegava às vezes pensando em como o homem
era fútil em querer essas coisas e esquecer-se de outras ainda mais importantes.
Como no final, no inferno, essas coisas não importavam mais. Estava vivo, era o
que importava, e agora tinha tempo para enxergar as outras coisas, tempo não
tinha quando todas essas coisas funcionavam.
A chuva não
havia diminuído, parecia querer lavar toda a destruição, toda a bagunça em que
o mundo se encontrava. Arrumou os colchonetes perto da sala de manutenção,
verificou mais uma vez a porta e decidiu ir dormir. Amanhã, não sabia se era
dia 13 ou 14, teria que sair pra buscar alimentos e seria um dia difícil.
O sol brilhava
forte, já bem longe do horizonte quando acordara. Dormiu demais, pensou, mas
daria tempo de sair. Apanhou um pouco de água no sistema e foi escovar os
dentes. Às vezes se pegava rindo do que havia feito ali no telhado do hospital.
Usava quatro antenas de celular de mais ou menos dois metros e altura, e a
dispôs em um quadrado com as mesmas proporções. Usando uma lona plástica,
prendeu cada ponta nas partes mais altas das antenas e montou uma barraca invertida.
Ainda nas pontas, prendeu um imenso lençol, para servir de filtro contra fezes
de pássaros e insetos, e na barriga que se formara, fez alguns furos, por onde
a água fluíra. Pelas suas contas, teria água por mais duas semanas no mínimo, e
com sorte, até lá, choveria mais. Lembrou dos diversos filmes e séries que
pipocavam na época e antes daquela desgraça toda acontecer. Adorava debater com
os amigos e ouvir os podcast que
falavam sobre o assunto. Nesses momentos lembrava-se do amigo Thiago. O que
seria do amigo? Não se lembrava muito bem dá última vez em que o vira, apenas
que estavam em seu carro indo pra casa. Uma nuvem negra parecia lhe cobrir os
pensamentos."


